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Atividade de genes virais incorporados ao genoma humano pode indicar piora do vitiligo


Atividade de genes virais incorporados ao genoma humano pode indicar piora do vitiligo

Em portadores da doença, o próprio sistema imune ataca as células produtoras de melanina, o que causa o surgimento de manchas brancas na pele (foto: Shutterstock)

Publicado em 15/09/2026

André Julião | Agência FAPESP – Pesquisadores apoiados pela FAPESP identificaram um novo e surpreendente fator associado ao vitiligo – doença em que o próprio sistema imune do paciente ataca as células produtoras de melanina e causa o surgimento de manchas brancas na pele. De acordo com dados publicados na revista Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, a ocorrência e a gravidade dessas lesões cutâneas estão ligadas à atividade de genes de vírus que estão presentes naturalmente no genoma humano.

Como explicam os autores, a presença desses genes virais tem uma explicação evolutiva. Milhões de anos atrás, eles foram incorporados ao genoma dos nossos ancestrais, possivelmente como um mecanismo de proteção, e hoje compõem cerca de 8% do DNA humano. Chamados de HERVs (retrovírus endógenos humanos), esses genes têm uma função dupla: na maior parte do tempo, exercem tarefas importantes para a saúde do corpo, mas também podem atuar como gatilhos para doenças autoimunes.

“Os HERVs são famílias retrovirais que podem ter um papel em doenças como a esclerose múltipla. Observamos que um gene de uma dessas famílias, a HERV-W, é mais ativo em pessoas com vitiligo do que naquelas sem a doença. Por sua vez, genes de outras duas famílias, HERV-H e HERV-K, são menos expressos nos pacientes com vitiligo do que nas demais pessoas”, explica Luiz Henrique da Silva Nali, professor da Universidade Santo Amaro (Unisa) e coordenador do estudo, financiado pela FAPESP.

Além disso, em pacientes com vitiligo cujas lesões pioraram, a expressão de HERV-W foi maior do que em pacientes com lesões estáveis. A maior expressão de HERV-W está ainda relacionada a uma maior concentração no sangue das chamadas citocinas pró-inflamatórias, moléculas produzidas pelo sistema imune para combater patógenos, mas que em excesso podem causar danos a células e tecidos do próprio organismo.

“Não sabemos o porquê, mas, quando a expressão de HERV-W era maior, aumentava também a inflamação, o que pode piorar as lesões. São dois processos que caminham juntos”, afirma Samuel Nascimento Santos, primeiro autor do estudo, realizado como parte de seu mestrado na Unisa.

O trabalho tem como base análises do sangue de 30 pessoas sem vitiligo e de 30 portadores da condição, recrutados na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), entidade parceira do estudo.

Compreender essa relação pode ser um caminho para, no futuro, desenvolver tratamentos e testes para o vitiligo, mas também para aprofundar o conhecimento sobre os retrovírus endógenos humanos e seu papel na fisiologia humana.


Samuel Nascimento Santos analisa dados do estudo sob orientação do professor Luiz Henrique da Silva Nali, da Universidade Santo Amaro (foto: José Roberto dos Santos David/Unisa)

Envelhecimento e atividade física

Em outro trabalho do grupo, publicado em março no International Journal of Molecular Sciences, os pesquisadores exploraram outra faceta dos HERVs.

Foram comparados três grupos de voluntários: um composto por 30 jovens (o grupo-controle), outro com 30 idosos que praticavam atividade física regular e um terceiro com 30 idosos fisicamente inativos. Os pesquisadores avaliaram quanto de DNA viral esses voluntários carregavam integrado aos seus próprios genomas (a chamada carga proviral) e quão ativos esses genes estavam nesses indivíduos.

Comparados com os jovens, os idosos sedentários apresentaram uma carga proviral mais alta das três famílias de HERV analisadas, mas, de modo geral, uma expressão baixa dos genes virais. Por sua vez, os idosos praticantes de exercício físico apresentaram uma expressão maior dos genes virais.

“O grupo que não praticava atividade física teve um perfil mais inflamatório do que os outros. Os idosos, de modo geral, apresentaram uma carga proviral mais alta, o que sugere uma relação entre envelhecimento e aumento da atividade desses genes”, diz Michelly Damasceno da Silva, primeira autora do trabalho realizado com Bolsa de Treinamento Técnico da FAPESP na Unisa.

Para Nali, os estudos ainda não trazem perspectivas de aplicação em curto e médio prazo, mas geram novas perguntas que motivarão novas investigações, como qual o limiar entre o que é favorável e o que é prejudicial à saúde quando se trata da atividade dos HERVs.

“É uma situação complexa. Ainda que tenha relação com doenças, essa parte do genoma tem funções na fisiologia humana, como no reparo tecidual muscular. Se suprimirmos algum deles, por meio de medicamentos, por exemplo, não sabemos se poderá provocar algum problema”, ressalva Nali.

Por isso, o grupo pretende agora estudar mais genes e mais famílias de HERVs, a fim de entender melhor o papel de cada um deles e encontrar potenciais alvos terapêuticos e marcadores moleculares que podem ajudar no desenvolvimento de tratamentos para doenças como vitiligo e esclerose múltipla e atenuar os efeitos deletérios do envelhecimento.

O trabalho teve ainda apoio da FAPESP por meio de Bolsa de Iniciação Científica para Pablo Fortunato da Silva na Unisa.

O artigo Analysis of the profiles of human endogenous retroviruses W, K, and H and the systemic inflammatory status in vitiligo patients: insights on the dynamics of endogenous retroviral expression and its interplay with inflammatory response pode ser lido em: frontiersin.org/journals/cellular-and-infection-microbiology/articles/10.3389/fcimb.2026.1739332.

O estudo Dynamics of human endogenous retroviruses expression, proviral load and systemic inflammatory status modulated by physical exercise and aging está disponível em: mdpi.com/1422-0067/27/7/3008.
 

Fonte: https://agencia.fapesp.br/59206