A Copaifera lucens é encontrada especialmente em áreas de Mata Atlântica (imagem: Geovane Siqueira/iNaturalist)
Publicado em 26/04/2026
Thais Szegö | Agência FAPESP – Ácidos galoilquínicos extraídos das folhas da copaíba vermelha (Copaifera lucens Dwyer), árvore endêmica do Brasil encontrada especialmente em áreas de Mata Atlântica, têm ação multialvo contra o vírus SARS-Cov-2, causador da COVID-19, revelou estudo conduzido por uma equipe internacional de cientistas.
A escolha da espécie ocorreu porque o farmacêutico Jairo Kenupp Bastos, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP), possui ampla experiência em fitoquímica e farmacologia de espécies de Copaifera.
Investigações anteriores já tinham relatado diversos benefícios biológicos e farmacológicos dos ácidos galoilquínicos retirados das folhas da copaíba vermelha, entre eles atividades antifúngicas e anticancerígenas in vitro e in vivo, além de propriedades antivirais de amplo espectro.
Segundo os pesquisadores, derivados da substância mostraram, inclusive, inibição significativa contra o HIV-1 em ensaios bioquímicos e cultura de células, com menor toxicidade do que outras moléculas testadas para esse fim.
Para iniciar o trabalho, que teve apoio da FAPESP e foi descrito em artigo publicado na Scientific Reports, os cientistas prepararam e caracterizaram frações ricas em ácidos galoilquínicos derivados das folhas da espécie. Em seguida, foram realizados ensaios de citotoxicidade para determinar a segurança da sua introdução nas células dos hospedeiros.
A avaliação da atividade antiviral foi feita por meio de ensaios de redução de placas, método usado para quantificar a capacidade de anticorpos ou compostos antivirais neutralizarem vírus, que revelaram forte ação contra o SARS-Cov-2. Também foram estudadas as expressões de proteínas virais e as interações com alvos virais-chave, como o domínio de ligação ao receptor da proteína Spike, que permite a entrada do vírus nas células humanas, a protease tipo papaína (PLpro) – enzima importante para a evasão viral – e a RNA polimerase – enzima essencial para a replicação do vírus.
Os resultados revelaram que ácidos galoilquínicos apresentaram forte ação contra a variante do coronavírus, inibindo a entrada viral nas células, a replicação do microrganismo e a expressão das proteínas virais. Além disso, as atividades anti-inflamatórias e imunomoduladoras da substância podem contribuir para a regulação da resposta imune do indivíduo infectado, o que é particularmente relevante em casos mais graves da doença.
“Um aspecto importante é o mecanismo multialvo do composto, o que reduz a probabilidade do desenvolvimento de resistência. Isso porque muitos antivirais atuais agem apenas sobre uma proteína viral, o que favorece esse efeito”, diz Bastos.
“A abordagem integrada nos permitiu compreender não apenas como os compostos funcionam, mas também como atuam em nível molecular”, conta Mohamed Abd El-Salam, professor da Delta University for Science and Technology (Gamasa, Egito) e da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha) cujo doutorado foi realizado na USP. O trabalho envolveu ainda integrantes de outras instituições de pesquisa egípcias e da República Tcheca.
Ainda existem alguns passos para que a substância seja transformada em medicamento contra a COVID-19, como ensaios in vivo e clínicos, mas, segundo os autores, a pesquisa reforça a importância da biodiversidade e da pesquisa com produtos naturais como fontes de candidatos terapêuticos inovadores, além de reforçar que a flora brasileira continua sendo um reservatório rico e estratégico para a descoberta de novos fármacos.
O artigo Bioactive galloylquinic acids from Copaifera lucens as dual inhibitors of SARS-CoV-2 Spike and RdRp proteins pode ser lido em nature.com/articles/s41598-025-25217-8.