A obra pode ser adquirida aqui (imagem: Consequência Editora/catálogo)
Publicado em 17/08/2026
José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Quem conta a história da geografia costuma começar pela Europa. A sucessão de nomes é conhecida: Immanuel Kant, Alexander von Humboldt, Friedrich Ratzel, Paul Vidal de La Blache e outros pensadores que moldaram a disciplina entre os séculos 18 e 20. Mas o que aconteceria se essa narrativa fosse reorganizada a partir de outro ponto de vista? E, em vez dos autores citados, o percurso tivesse início com geógrafos africanos, afro-diaspóricos e brasileiros negros cujas contribuições permaneceram à margem da historiografia durante décadas?
Essa é a proposta de A dimensão racial na história do pensamento geográfico: Constelações Orí e nervuras da raça, coletânea organizada pelo geógrafo Guilherme dos Santos Claudino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Presidente Prudente, que reúne pesquisadores do Brasil, da África, da Europa e dos Estados Unidos. Ao longo de 33 capítulos, distribuídos em 782 páginas, a obra realiza um duplo movimento: recupera tradições intelectuais pouco conhecidas e revisita criticamente o papel desempenhado pela categoria raça na formação do pensamento geográfico moderno.
O livro, publicado pela Consequência Editora, é o primeiro resultado do projeto “Pensamento geográfico negro: Vozes e trajetórias negras na história do pensamento geográfico no século 20”, financiado pela FAPESP.
“O meu desejo inicial era fazer um livro tentando entender o que esses geógrafos europeus pensavam sobre a questão racial. Mas, no percurso da pesquisa, comecei a procurar geógrafos negros para além de Milton Santos [1926-2001] e me deparei com um universo extremamente rico, principalmente de autores africanos praticamente desconhecidos por nós”, diz Claudino.
A descoberta acabou modificando completamente a arquitetura da obra. “Olhei para o esqueleto do livro e pensei: ‘Acho que seria interessante ousar um pouco mais’. E inverti a ordem”, afirma. Em vez de dedicar um capítulo aos geógrafos negros depois de percorrer os autores clássicos europeus, Claudino decidiu iniciar justamente por aqueles que haviam sido historicamente secundarizados. A primeira parte da coletânea, intitulada “Constelações Orí”, reúne estudos sobre a formação da geografia em países como Nigéria, Gana, Moçambique, África do Sul e São Tomé e Príncipe, ao mesmo tempo em que recupera trajetórias de intelectuais negros do Brasil e dos Estados Unidos. Só depois a obra passa à segunda parte, “Nervuras da Raça”, dedicada a examinar criticamente a presença do pensamento racial em autores europeus consagrados.
A introdução do livro deixa claro que o objetivo não é simplesmente denunciar manifestações de racismo presentes na tradição disciplinar. A proposta é mais ampla: compreender de que maneira conceitos como raça, etnia e diferenças humanas participaram da própria construção da geografia moderna e, ao mesmo tempo, recuperar uma produção intelectual africana e afro-diaspórica praticamente ausente das narrativas convencionais.
Esse segundo movimento levou Claudino a reunir cerca de 150 nomes de geógrafos negros, dos quais apenas uma parte integra a coletânea. “O livro apresenta uma pequena parcela desse universo. O objetivo maior do projeto é produzir, no futuro, uma enciclopédia dedicada aos geógrafos negros dos séculos 19 e 20”, informa.
Entre as personalidades recuperadas estão o nigeriano Akin Mabogunje (1931-2022), considerado um dos pais da geografia africana moderna; o são-tomense Francisco José Tenreiro (1921-1963), que foi também um dos grandes poetas africanos de língua portuguesa; a norte-americana Thelma McWilliams Glass (1916-2012), militante de primeira hora do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos; o brasileiro Teodoro Sampaio (1855-1937), filho de uma mulher negra escravizada e que, além de geógrafo, destacou-se como engenheiro, historiador e escritor; e o haitiano Georges Anglade (1944-2010), forte opositor do regime ditatorial de François Duvalier, no Haiti, e um dos fundadores da Université du Québec à Montréal, no Canadá. O livro inclui ainda textos originais de alguns desses autores, traduzidos para o português, ampliando o acesso a uma produção praticamente desconhecida no país.
Um acerto de contas com a tradição
Na segunda metade da obra, o foco desloca-se para a tradição europeia. Os capítulos analisam desde a presença da categoria “raça” na obra Geografia Física (1802) de Kant e revisões recentes da obra de Humboldt, até o conceito de Lebensraum (termo em alemão que significa “espaço vital”). Desenvolvido por Friedrich Ratzel, esse termo foi posteriormente apropriado pela geopolítica nazista para justificar a expansão territorial da Alemanha, o que resultou em conquistas militares de países, deslocamentos, escravizações e extermínios de populações.
“É um acertar de contas com os grandes nomes da geografia”, resume Claudino. “Nessa parte, procuramos compreender como alguns geógrafos contribuíram para o nazismo, o apartheid e outras formas de pensamento racialista.”
Milton Santos, cujo centenário é comemorado em 2026 (leia mais em: agencia.fapesp.br/miltonsantoscentenario/), também ocupa lugar importante na coletânea. Além de reproduzir um texto inédito do geógrafo baiano, o livro questiona uma interpretação segundo a qual, embora negro, ele não teria tratado da questão racial. “Não há geógrafo brasileiro do século 20 que tenha escrito mais sobre a África e a questão racial do que Milton Santos. Levantei cerca de 20 textos dele dedicados a esses temas. Dizer que ele não se preocupou com a questão racial é simplesmente uma inverdade”, rebate Claudino.
Mais do que acrescentar novos personagens à história da geografia, a obra propõe alterar o próprio modo de narrá-la. Rompendo com um percurso linear centrado exclusivamente na experiência europeia, apresenta uma história construída a partir de múltiplas tradições intelectuais, mostrando que a produção do conhecimento geográfico sempre foi mais diversa do que sugere o cânone consolidado. Para além da recuperação de autores esquecidos, é essa mudança de perspectiva que constitui a principal contribuição da coletânea.
O livro A dimensão racial na história do pensamento geográfico: Constelações Orí e nervuras da raça pode ser adquirido em: consequenciaeditora.net.br/p-11250791-a-dimensao-racial-na-historia-do-pensamento-geografico-constelacoes-ori-e-nervuras-da-raca.--org.-guilherme-dos-santos-claudino.