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Megaestudo analisa impacto da prática da gratidão em 34 países


Megaestudo analisa impacto da prática da gratidão em 34 países

Segundo pesquisador, a investigação se insere no contexto da discussão sobre por que, do ponto de vista evolutivo, as pessoas sentem gratidão (imagem: Shutterstock)

Publicado em 14/08/2026

Frances Jones | Agência FAPESP – Práticas para induzir o sentimento de gratidão – como enviar uma mensagem de apreço a alguém ou fazer uma lista de itens pelos quais se é grato – trazem benefícios reais para o humor e as relações sociais. Entre os efeitos positivos estão o aumento do otimismo e a redução do sentimento de inveja. Contudo, o impacto varia significativamente dependendo da cultura do país e do tipo de intervenção adotada. É o que revela um estudo global com mais de 10 mil participantes em 34 países, publicado em maio na revista científica PNAS, da Academia de Ciências dos Estados Unidos. No Brasil, o projeto contou com a participação de 598 voluntários, que responderam às propostas de intervenção via ferramenta on-line.

Das seis estratégias testadas nos diversos países, a que mais teve efeito foi a que sugeria que a pessoa escrevesse e enviasse uma mensagem para alguém a quem era grata. Por outro lado, a intervenção que apresentou o menor impacto foi a que costuma ser mais popular: simplesmente fazer uma lista de cinco coisas pelas quais se é grato. As outras propostas foram: escrever uma carta a uma pessoa a quem se é grato, mas não enviar; fazer a chamada reflexão de Naikan (escrever sobre três coisas ocorridas na semana anterior, refletindo sobre o que você recebeu, o que você deu e o que mais você poderia fazer para ajudar); pensar e escrever sobre cinco coisas ocorridas no dia anterior sobre as quais se é grato e, em seguida, imaginar como seria a sua vida sem isso; escrever uma carta a Deus, a uma força superior ou a algum tipo de entidade espiritual reconhecendo o que lhe foi dado.

“Um dos principais resultados a que chegamos é que, no geral, todas as intervenções propostas funcionaram”, comenta o psicólogo Paulo Sérgio Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva (INCT-Sani). Segundo ele, porém, o maior efeito se deu quando a conexão social explicitamente entrou em jogo. “A questão da conexão social é central.”

Boggio e sua antiga orientanda Beatriz Bezerra de Souza, que teve apoio da FAPESP no mestrado, são os dois coautores brasileiros do artigo. Ao todo, 36 pesquisadores assinam o paper, entre eles o psicólogo experimental Michael McCullough, professor da Universidade da Califórnia em San Diego, nos Estados Unidos. O trabalho foi coordenado pelo pesquisador Nicholas Coles, da Universidade da Flórida.

De acordo com Boggio, todas as seis intervenções para induzir gratidão produziram mais impacto do que as três práticas de controle, que consistiam em apenas responder a um questionário; escrever genericamente sobre um evento passado; ou escrever sobre eventos recentes interessantes. “Para a intervenção ser melhor, produzir mais efeito, ela tem de ser mais do que simplesmente pensar em uma coisa boa”, diz.

Diferenças culturais

Os autores verificaram que as intervenções de gratidão levaram a melhoras imediatas e mensuráveis de estados psicológicos ligados ao chamado florescimento humano. Foram observados um aumento no afeto positivo e no sentimento de reciprocidade social, uma redução no afeto negativo, uma maior satisfação com a vida e otimismo e uma redução no sentimento de inveja.

Embora tenha havido variação relacionada às diferentes intervenções, a oscilação maior se deu na comparação entre os países. Enquanto se registrou um impacto maior das práticas no México, na Noruega o efeito foi quase nulo. O Brasil, de acordo com o estudo, ficou no meio da escala. Rigidez ou flexibilidade cultural, distância do poder – conceito que reflete o quanto uma sociedade aceita e naturaliza a desigualdade hierárquica e social – e religiosidade da população interferiram no grau de impacto das medidas propostas. Alguns efeitos das práticas de gratidão também se mostraram mais universais que outros. Sentir-se mais positivo, por exemplo, foi um efeito quase universal das intervenções.

De acordo com Boggio, o estudo se insere em uma discussão sobre por que, do ponto de vista evolutivo, as pessoas sentem gratidão. “A gratidão é uma emoção com componente social muito forte. Sentir-se grato aumenta a probabilidade de você ajudar outras pessoas – e não necessariamente a pessoa que te ajudou”, afirma. “Isso gera uma espiral de ajuda entre as pessoas, não obrigatoriamente porque há uma expectativa de ganho direto.”

Um dos efeitos medidos no estudo foi o do sentimento de reciprocidade. “O nosso ‘obrigado’ pode ser entendido de várias formas. Uma delas é que sou obrigado a ser recíproco, a fazer o bem para o outro, a devolver”, comenta o pesquisador. “Tanto que há pessoas que, quando recebem algo pelo qual ficam muito gratas, vivenciam a experiência positiva e, ao mesmo tempo, a sensação de estar em dívida.” De acordo com Boggio, a gratidão ajuda a formar laços e conexões.

Agora os pesquisadores buscam entender se a grande variação nas respostas entre os países está ligada às características locais das normas sociais ou se é preciso ainda encontrar uma forma de induzir gratidão por meio de intervenções que funcionem para determinado país. “Como podemos induzir gratidão na Noruega? E no Japão?”, afirma, citando alguns dos países onde se registrou pouco impacto das práticas.

Boggio ressalta que esse grande estudo feito com a colaboração de diversos países é importante para buscar escapar da concentração de dados provenientes dos ditos países ocidentais, em geral dos Estados Unidos. “Mais ou menos 50% dos estudos de gratidão têm origem norte-americana. A ideia foi fugir um pouco disso e aplicar o teste em países com uma grande variação cultural.”

Todos os dados brutos da pesquisa podem ser encontrados no site da Open Science Foundation.

O artigo A multinational megastudy of the effects of gratitude practices on subjective well-being pode ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2537789123.
 

Fonte: https://agencia.fapesp.br/58984