Estágio de formação de gametócitos Plasmodium falciparum (imagem: Shutterstock)
Publicado em 14/09/2026
Sophia La Banca | Agência FAPESP – Moléculas conhecidas por sua atividade contra o câncer se mostraram eficazes no combate ao Plasmodium falciparum, parasita causador da malária. A pesquisa, realizada na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF-USP), também investigou como diferenças na estrutura das moléculas estudadas afetam seus efeitos sobre os parasitas, abrindo caminho para o desenvolvimento de medicamentos mais eficazes.
A malária foi responsável por cerca de 600 mil mortes em 2024, segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com Célia Regina da Silva Garcia, professora no Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da FCF-USP, estima-se que 90% desses óbitos sejam causados pelo Plasmodium falciparum, uma das espécies causadoras da doença. Apesar de já haver tratamentos para essa enfermidade, a resistência do parasita a medicamentos como a cloroquina e a artemisinina tem se tornado mais comum, o que torna necessário o desenvolvimento de novos tratamentos. Nesse contexto, o reaproveitamento de fármacos já utilizados em outras indicações surge como uma alternativa mais rápida e barata para a busca de novas abordagens terapêuticas.
A pesquisa, desenvolvida com o financiamento da FAPESP (projetos 17/08684-7, 21/06607-0, 23/07656-0, 24/07723-2, 22/15522-1, 24/09115-0, 24/06392-2, 22/07275-4 e 23/07455-5), testou 14 compostos derivados de um antineoplásico – medicamento usado no tratamento do câncer – em parasitas da espécie P. falciparum cultivados em laboratório. Os resultados mostraram que as moléculas foram eficientes na eliminação dos microrganismos em duas fases diferentes de seu desenvolvimento, a assexuada e a de gametócitos.
Ao eliminar o parasita na fase assexuada – momento em que ele se reproduz nas células sanguíneas e causa a febre típica da malária –, os novos fármacos mostram grande potencial de tratamento. Além disso, as moléculas também atuam na fase de gametócito, estágio em que o Plasmodium infecta os mosquitos. Dessa forma, além de tratar o paciente, a medicação consegue bloquear a transmissão da doença.
Efeitos colaterais
Apesar dos resultados promissores, publicados em julho na revista ACS Omega, há preocupação quanto a possíveis efeitos colaterais dessas moléculas. Como foram realizados apenas testes in vitro, ainda não foi possível avaliar a extensão do problema. Alguns dos compostos testados demonstraram menor efeito em testes com células humanas, enquanto mantiveram o efeito sobre os parasitas, indicando menor risco de efeitos adversos graves, mas apenas testes in vivo poderão confirmar isso. “As moléculas dessa classe podem causar fadiga, náuseas, vômitos e alterações hematológicas, como redução de plaquetas. É natural que exista essa preocupação”, diz Garcia. Os testes in vivo também serão importantes para verificar a capacidade dos candidatos a fármacos de se manterem estáveis dentro do organismo do paciente, já que medicamentos dessa classe costumam se degradar rapidamente nessas condições.
Para superar essas limitações, a equipe de Garcia analisou como as variações na estrutura dos diferentes derivados alteram seu funcionamento e qual é o alvo desses derivados na célula do parasita. Com isso, é possível planejar o desenvolvimento de novos fármacos com características mais adequadas ao tratamento. “Quando fazemos um desenvolvimento racional de novas moléculas, podemos aperfeiçoar a estrutura química de uma forma direcionada. Nossos ensaios fortaleceram a hipótese de que as enzimas histonas desacetilases são um importante alvo terapêutico para a malária. Com isso, conseguimos planejar novas moléculas cada vez mais potentes e seletivas para o parasita”, explica Garcia.
Outro objetivo futuro da equipe de Garcia é testar as moléculas em outras espécies de parasitas causadores da malária, como o Plasmodium vivax, espécie predominante no Brasil e que possui uma forma capaz de provocar recaídas mesmo após o tratamento. “O P. vivax também pode desenvolver formas latentes, conhecidas como hipnozoítos, que se alojam no fígado. Além disso, é mais distribuído em países equatoriais. Então, é importante avaliar a eficácia de antimaláricos em diferentes espécies, para garantirmos que sejam eficazes em diversas regiões do mundo”, diz Garcia.
O artigo Repurposing 6-Anilinopurine derivatives that exhibit PfHDAC1 inhibition and antimalarial activity against asexual and sexual stages of Plasmodium falciparum pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acsomega.5c12744.