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Pesquisa contesta suposto efeito anti-inflamatório da creatina


Pesquisa contesta suposto efeito anti-inflamatório da creatina

Estudos conduzidos com pacientes com osteoartrite e com idosos, por exemplo, não encontraram reduções significativas em marcadores inflamatórios como proteína C reativa (PCR), interleucinas e outras citocinas, mesmo após semanas de suplementação (imagem: Krzysztof Biernat/Pexels)

Publicado em 02/06/2026

Fernanda Bassette | Agência FAPESP – A creatina, um dos suplementos mais populares entre frequentadores de academia e atletas, parece não ter o efeito anti-inflamatório que muitos imaginam. A conclusão é de uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que avaliou diversos ensaios clínicos e concluiu que, até o momento, não há evidências consistentes de que a substância reduza marcadores inflamatórios no organismo.

O estudo, apoiado pela FAPESP, foi realizado no Centro de Estudos de Revisão Sistemática na Saúde Cardiovascular e Metabólica da Unesp em Marília. Os autores analisaram dados de oito ensaios clínicos randomizados e controlados por placebo para investigar os efeitos da suplementação de creatina sobre os biomarcadores inflamatórios mais comuns. Os resultados foram publicados em fevereiro na revista científica Frontiers in Immunology.

Desde os anos 1990, a creatina é utilizada e amplamente reconhecida por seus efeitos ergogênicos, ou seja, que melhoram o desempenho físico ajudando o corpo a treinar melhor, produzir mais força, resistir mais ao cansaço ou se recuperar mais rápido. Mas a popularização do suplemento trouxe uma série de interpretações equivocadas sobre seus possíveis benefícios – entre eles, o suposto efeito anti-inflamatório.

“Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados da pesquisa básica nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos”, explica o pesquisador Vitor Engracia Valenti, coordenador do grupo e orientador do estudo.

De fato, explica Valenti, existem algumas evidências de que a creatina possui propriedades anti-inflamatórias que ajudariam a preservar a integridade muscular e a atenuar marcadores inflamatórios após sessões extenuantes de exercício, mas os mecanismos exatos responsáveis ainda não estão completamente definidos.

Os resultados dos estudos analisados foram heterogêneos e variaram conforme a população e o tipo de intervenção. Em contextos de exercício intenso e de longa duração, alguns trabalhos apontaram efeitos anti-inflamatórios da creatina. É o caso de pesquisas com atletas submetidos a protocolos de alta dose (cerca de 20 g por dia por cinco dias), que observaram reduções em marcadores inflamatórios após provas extenuantes, como corridas de longa distância e triatlos. Nesses cenários, houve diminuição da prostaglandina E2 (PGE2), fator de necrose tumoral alfa (TNF-α) e interleucina-1β, sugerindo um possível efeito protetor contra o dano muscular e a resposta inflamatória aguda induzida pelo exercício extenuante.

Por outro lado, esse benefício não se repetiu em diferentes perfis populacionais e condições clínicas. Estudos conduzidos com pacientes com osteoartrite e com idosos, por exemplo, não encontraram reduções significativas em marcadores inflamatórios como proteína C reativa (PCR), interleucinas e outras citocinas, mesmo após semanas de suplementação.

Em alguns casos, as melhorias observadas – como redução de certos marcadores ou ganho de força – foram atribuídas ao próprio exercício físico, e não à suplementação com a creatina. Além disso, investigações em nível molecular e de recuperação muscular também não identificaram impacto relevante da substância sobre a inflamação, reforçando que seus efeitos podem ser limitados a contextos específicos e não generalizáveis.

Entre os biomarcadores mais frequentemente avaliados nos estudos, destacaram-se a PCR e a interleucina-6 (IL-6). Os resultados mostraram reduções muito pequenas entre os participantes que utilizaram creatina, diferenças que não foram consideradas estatisticamente nem clinicamente significativas. No caso da PCR, por exemplo, a redução média foi de apenas 0,41 miligramas por decilitro (mg/dL). “A magnitude da diferença foi pequena”, explica o pesquisador. No caso da interleucina-6, a redução do biomarcador em quem fazia suplementação regular de creatina foi ainda menor. “Teve uma diminuição mínima, que não é significativa do ponto de vista estatístico e clínico”, afirma.

Apesar disso, Valenti faz uma ressalva: a ausência de evidência não significa necessariamente que o efeito anti-inflamatório não exista. “Diante desses achados, recomendamos a realização de mais ensaios clínicos randomizados, controlados por placebo, para confirmar os dados observados. Nosso estudo funciona como um estímulo, uma provocação à comunidade científica, ao evidenciar a necessidade de investigações mais robustas sobre o tema.”

Outro ponto destacado pelo pesquisador é que a inflamação no corpo nem sempre é prejudicial. Durante o exercício físico, por exemplo, o corpo produz moléculas inflamatórias que são fundamentais para a adaptação muscular. “Essa resposta inflamatória aguda e transitória, juntamente com outros sinais moleculares induzidos pelo exercício, participa dos processos de reparo, remodelamento e adaptação muscular”, explica.

Segurança

De modo geral, a revisão de estudos concluiu que a suplementação de creatina apresenta um bom perfil de segurança, mesmo em diferentes populações e contextos. Em protocolos de curto prazo com doses elevadas (20 g por dia por cinco dias), atletas submetidos a exercícios intensos e prolongados não relataram efeitos adversos relevantes, como cãibras, desidratação ou desconfortos gastrointestinais, mantendo desempenho dentro do esperado. Resultados semelhantes foram observados em estudos experimentais com indivíduos saudáveis, nos quais a substância foi bem tolerada.

Esse padrão também se repetiu em populações clínicas (um grupo de indivíduos que possuem o diagnóstico de uma condição, doença ou transtorno específico) e idosos, inclusive em intervenções mais prolongadas. Em pacientes com osteoartrite e em idosos submetidos a treinamento de força, por exemplo, a creatina não foi associada a eventos adversos clínicos relevantes nem a alterações metabólicas ou funcionais desfavoráveis. Em conjunto, os dados reforçam que, quando utilizada de forma adequada, a creatina tende a ser segura e bem tolerada.

Na prática, os achados não mudam as recomendações atuais sobre o uso do suplemento, que continua sendo considerado seguro para a maioria das pessoas e pode trazer benefícios relacionados ao desempenho físico. “A creatina pode favorecer a força e o desempenho muscular durante o exercício e, em alguns contextos, pode contribuir indiretamente para a funcionalidade”, afirma Valenti.

Ainda assim, antes de decidir consumir creatina, o uso deve ser orientado por um profissional de saúde. “É importante buscar um médico, nutricionista ou educador físico antes de começar a usar, porque cada pessoa tem uma necessidade diferente”, recomenda o pesquisador. Para Valenti, o principal impacto do estudo é abrir caminho para novas investigações. “A grande importância dessa revisão é mostrar que ainda há poucos ensaios clínicos sobre o tema e provocar a comunidade científica a avançar nessa área”, conclui.

O artigo Impact of creatine supplementation on inflammation: evidence from a systematic review and meta-analysis of randomized double-blind placebo trials pode ser lido em: frontiersin.org/journals/immunology/articles/10.3389/fimmu.2026.1743603.
 

Fonte: https://agencia.fapesp.br/58271