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Pesquisa descreve dois perfis psicopatológicos de jovens com autolesão não suicida


Pesquisa descreve dois perfis psicopatológicos de jovens com autolesão não suicida

Pesquisa avaliou 1.345 pessoas em duas fases da vida – dos 9 aos 18 anos e dos 13 aos 23 anos – e, utilizando algoritmos de machine learning, classificou os participantes em dois grupos: de alta e baixa psicopatologia (imagem: Yamu_Jay/Pixabay)

Publicado em 16/06/2026

Agência FAPESP * – Um estudo identificou dois diferentes perfis entre crianças e adolescentes com relatos de autolesão não suicida (ALNS). A pesquisa avaliou os indivíduos em duas fases da vida – dos 9 aos 18 anos e dos 13 aos 23 anos – e, utilizando algoritmos de machine learning, classificou os participantes em dois grupos: de alta e baixa psicopatologia, ou seja, com altos e baixos níveis de sintomas psiquiátricos e psicológicos.

A identificação desses padrões possibilita a adoção de estratégias de intervenção precoce e mais bem direcionadas para pacientes que se enquadrem nos diferentes perfis.

A autolesão não suicida consiste em danos corporais deliberadamente cometidos sem a intenção imediata de morrer. A ALNS é prevalente entre jovens, com taxas observadas de 17,4% entre adolescentes de 10 a 18 anos e de 13,4% em adultos jovens de 18 a 24 anos. O comportamento é uma importante preocupação de saúde pública, visto que indivíduos que se autolesionam apresentam maior probabilidade de tentarem suicídio e de desenvolverem problemas de saúde mental, como depressão e abuso de substâncias. Entre os principais fatores de risco identificados para a ALNS estão os transtornos mentais, as experiências adversas na infância, bullying e problemas familiares. Entre os fatores de proteção para o surgimento desse comportamento estão senso de pertencimento, relações positivas com os pais e uma vida social saudável.

Do total de 1.345 participantes, 244 apresentaram relatos de ALNS, sendo 117 caracterizados com perfil de alta psicopatologia e 127 de baixa. Os indivíduos integram a Coorte Brasileira de Alto Risco para Condições Mentais, projeto que acompanha, há 15 anos, 2.500 crianças e adolescentes, em São Paulo e Porto Alegre, em uma investigação sobre a origem dos transtornos mentais.

A pesquisa foi conduzida pelos psiquiatras Marcos Croci e Marcelo Brañas, como parte dos estudos de doutorado que desenvolvem no Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), que é um dos Centros de Pesquisa Aplicada (CPAs) da FAPESP, com sede na USP e parceria das universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O estudo foi publicado em fevereiro no periódico Translational Psychiatry.

Os dois perfis

Os indivíduos caracterizados pelo perfil de “alta psicopatologia” foram aqueles que desenvolveram fatores associados à ALNS mais precocemente. Esses participantes apresentaram sintomas psiquiátricos persistentes e mais graves, além de adversidade social significativa ao longo do desenvolvimento, como problemas familiares e bullying.

O grupo apresentou múltiplas experiências de adversidade desde a infância até o final da adolescência. Nas idades de 6 a 14 anos, por exemplo, esse perfil esteve associado a diversos fatores frequentemente considerados de risco para a autolesão não suicida, como transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e conflitos relacionais.

Com a idade média de 13,5 anos, começaram a emergir sintomas psiquiátricos, incluindo depressão, ansiedade, sintomas de transtornos alimentares e desregulação emocional, juntamente com a continuidade de experiências adversas, como bullying. Já ao redor dos 18 anos, o relato de ALNS apareceu de forma concomitante a transtornos psiquiátricos, como depressão, comportamentos de agressividade e experiências traumáticas.

Segundo os pesquisadores, os indivíduos desse grupo apresentam trajetória de vida consistente com um “efeito cascata” do desenvolvimento, no qual interações cumulativas entre vários fatores ao longo do tempo levam a níveis crescentes de psicopatologia.

“Esses comportamentos podem servir como um sinal inicial dos jovens que mais necessitam de intervenções para conter o desenvolvimento de psicopatologia complexa e de suicidabilidade durante um período sensível do desenvolvimento cerebral. O estudo ajuda a identificar populações em risco”, destaca Croci.

Já o perfil identificado como de “baixa psicopatologia” experimentou problemas de saúde mental apenas mais tardiamente no desenvolvimento, com desafios menos graves ao longo do tempo, como suspensão escolar e sintomas depressivos mais leves. O grupo não esteve associado a tantos fatores clínicos de risco claros no início da vida comumente ligados à ALNS, o que sugere um perfil menos vulnerável. Esses jovens também tiveram menos problemas de sono, assim como menos conflitos familiares e dificuldades com amigos, refletindo um ambiente mais estável da infância ao início da adolescência.

Os desafios para o grupo de baixa psicopatologia manifestaram-se mais tardiamente, com alguns participantes desenvolvendo transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), TDAH, dificuldades psicossociais e alguns sintomas depressivos. Segundo os pesquisadores, os comportamentos de autolesão não suicida podem surgir para esses jovens como um “mecanismo de regulação emocional” em situações estressantes típicas da adolescência, em vez de um sintoma de uma psicopatologia grave e generalizada.

IA e estratégias de intervenção

Para identificar os perfis distintos nos jovens que apresentaram relatos de autolesão não suicida na fase dos 13 aos 23 anos, os cientistas utilizaram, primeiramente, algoritmos de machine learning não supervisionados. Em seguida, aplicaram três modelos supervisionados para identificar os preditores desses perfis, ou seja, os fatores que, mais tarde, se mostraram associados com a alta ou a baixa psicopatologia.

Para os pesquisadores, os achados destacam a importância da intervenção precoce para prevenir o desenvolvimento de trajetórias associadas a níveis mais elevados de psicopatologia. “Adiar a intervenção até que o limiar diagnóstico seja atingido significa perder uma janela crítica do desenvolvimento adolescente, impondo um custo substancial às trajetórias de saúde mental e ao funcionamento psicossocial de jovens vulneráveis”, afirma Croci.

Em relação ao grupo identificado como de “alta psicopatologia”, os pesquisadores chamam atenção para o uso comum de estabilizadores de humor por esses indivíduos. Fato que, para eles, destaca a necessidade de programas de intervenção precoce que adotem estratégias não meramente farmacológicas e considerem um contexto social mais amplo.

Já dentre os indivíduos com o perfil de “baixa psicopatologia”, os pesquisadores apontam maior dificuldade em distinguir os com e sem relatos de ALNS. Por isso, frisam a importância de evitar a patologização excessiva do comportamento.

O artigo Psychopathology profiles and longitudinal correlates of nonsuicidal self-injury in youth: a machine-learning approach pode ser lido em: nature.com/articles/s41398-026-03832-x.

* Com informações de Mainary Nascimento, do CISM.
 

Fonte: https://agencia.fapesp.br/58396